quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A máscara

Hoje acordei serena. Como se nada tivesse acontecido. Como se não houvesse passado um só dia desde o último em que me senti assim. Tomei meu chocolate quente, fumei o primeiro cigarro e me pus pra rua. Até quando terei essa sensação de liberdade?, pensei. Pensar é um prazer imediato na intenção de se liberar endorfinas. Seja um bom ou mal pensamento, todos eles possuem as mesmas funções: a de equilibrar. Chegando no trabalho, coloquei minha máscara de contente, como todos os dias e cumprimentei a todos. Será que sou a única a me mascarar? Não. Todos aqueles que vivem em sociedade vestem um personagem para ser suportável a convivência. Tanto a dos outros quanto a sua própria para os outros e com você mesma. E mesmo sabendo disso, fico surpresa a cada máscara que cai. Às vezes acontece da mascara cair. Pois quem a usa deixa escapar certas coisas. Como um dia em que eu estava em frente ao prédio onde moro, esperando o ônibus chegar, e lá longe estava ele, sorridente como uma criança que acabara de ganhar um presente. Não podia acreditar... como ele pôde? Distraída, dei o sinal para o primeiro ônibus que passava. Sentei no primeiro banco que vi e desatei a chorar. As máscaras a minha volta vieram perguntar se tudo estava bem; eu respondia que quando se chora nem sempre tudo estava indo mal. Afinal, eu o vi sorrindo, quase que gargalhando, e aparentemente para ele tudo estava a mil maravilhas. Enxuguei as lágrimas e perguntei para onde o ônibus estava indo. Me respondera de uma forma tão terna, que tive vontade de sorrir. Agradeci e desci no ponto seguinte. Sem saber onde eu estava, entrei em um boteco para tomar um café e acender um cigarro. Coloquei as ideias no lugar, então comecei a andar. Tão sem rumo quanto um barco à velas sem leme, que novamente pude sentir a leveza da vida. Dane-se o trabalho, dane-se os clientes e dane-se todo e qualquer tipo de obrigação. Meu único compromisso era comigo e minha liberdade. Deixei a máscara dentro da bolsa e continuei andando. Quando me dei conta já sabia onde eu estava: próxima do trabalho. Ainda dava tempo de honrar o horário de entrada (e sem máscara!). Neste dia mágico, agi com doçura incomensurável, todos me retribuiam com gentilezas e sorrisos. Percebi que há momentos em que as máscaras não são tão necessárias. Naquele dia, mesmo com raiva de todos aqueles pensamentos que rodeavam dentro da minha cabeça, guardei-a (a raiva) na bolsa, junto com a máscara e aprendi um pouco mais a deixar as coisas desnecessárias pra lá. Pois a cada dia aprende-se mais sobre a mesma coisa. E hoje, em que despertei serena, após cumprimentar todos, me lembrei dos aprendizados da vida, tirei a máscara e guardei na bolsa. Pois afinal, há uma grande diferença entre tirá-la propositalmente ou deiá-la cair...

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