Me pergunto qual é a graça da vida quando não se tem ilusões. Não tenho ilusão amorosa, ilusão financeira, ilusão familiar, ilusão de imagem de beleza, ilusão de status. Me falta a ilusão da vida. Não sinto prazer em viver. Como não posso parar como antes eu parava, dá pra disfarçar a desvontade de viver. Mas pelo menos antes a poesia vinha me visitar. Antes a dor da vida era maior, muito maior, sofria muito mais. Hoje já me acostumei com ela. A impressão que tenho é que vivi tudo o que eu tinha que viver em relação aos prazeres da vida, o prazer de ser compreendida, o prazer de viajar, o prazer de seduzir, o prazer de comer um bom prato de alta gastronomia, o prazer da vaidade, o prazer do corpo, o prazer da poesia, o prazer da paixão, o prazer da amizade.. Enfim, os prazeres da vida me passaram, como se eu fosse uma idosa de 110 anos bem vividos. Como se eu estivesse só aguardando o inevitável acontecer, de Deus me levar, me chamar pra descansar, ou pra trabalhar com prazer de servir à Ele. E não mais viver aqui, onde a cada dia que passa estou privada dos prazeres da vida. Que graça tem? Pra que? Viver por viver, viver pra sofrer, viver pra privar, viver pra definhar. Ainda bem que não tenho filhos, e por enquanto não pretendo tê-los. Como ser uma mãe sem ilusões? Seria uma péssima, estragaria a vida de uma pessoa, com certeza. Sem realizações e sem satisfações, pois esses dois elementos dependem das ilusões que se tem. Eu não queria falar, não gostaria mesmo de assumir, mas assim que minha mãe se foi, as ilusões, pouco a pouco se foram também. Não sei exatamente qual relação uma coisa tem a ver com a outra, mas desejo que ela não se sinta culpada, tente me entender e fique bem.
Aí quando eu vejo uma grande diferença entre o discurso e a atitude das pessoas, me decepciono. Muito. Coisas que há anos eu acreditava como verdade única e absoluta, se desfazem. Apenas com uma simples observação de atitudes. Em um ano, amadureci 10. E isso ninguém tira de mim, nem as decepções, nem se eu olhar pra trás e voltar pra trás. A solidão é algo real e concreto. Vi quem se importa, quem sente consideração, quem me ama. Acho que o amor puro e verdadeiro, só de Deus. As outras pessoas também tem a vida delas, as solidões delas. Quem só falava, ou quem muda de ideia rapidamente de uma hora para a outra mostraram suas caras pelas (faltas de) atitudes. A distância é um elemento bastante interessante, assim como a solidão, a desilusão... Quando eu falo alguma coisa e me respondem que sabem bem como é, sinto vontade mas não digo.... quero dizer que não sabem tão bem quanto eu sei. Falo com propriedade de quem não tem mais dó de si, de quem viveu pra poder dizer, sem aumentar nem diminuir, sem exageros. Apenas com a experiência da dura realidade que a solidão, a distância, a desilusão e outras 'faltas' me trouxeram.
Já levei tanta cacetada da vida, que estou começando a concluir de que a desilusão vem daí. A amargura, o isolamento, a distância, as faltas.... uma coisa tem a ver com a outra. E aí faço sofrer quem está ao meu lado. Não trato com o devido cuidado. Acabo tratando de qualquer jeito, da mesma forma como me trato. Aí descamba tudo e a bola de neve se perpetua.
Aprendi também que ninguém se importa como eu me importo. Ninguém no mundo, talvez mais que eu só Deus, por isso que é Ele quem me ama pura e verdadeiramente. Aí, pra sofrer menos ou fingir que não sofro, a gente se engana que não se importa, e vai engolindo toda a dor, todo o sofrimento, toda a privação, toda a solidão, toda a mágoa, toda a desilusão, todas as decepções, tudo de ruim e péssimo que você não pode dividir com ninguém, porque sabe que ninguém vai te entender. Você já perdeu essa ilusão de que alguém te entenderia nesse mundo. Isso não existe pronto e acabou.
E a gente vai seguindo... respirando, dormindo, levantando, comendo, tomando banho, trabalhando, comendo, respirando, dormindo, levantando..... viver por viver.