quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Andando suavemente, a garota pegou duas flores do chão. "Aquelas flores". Então, começou a girar as flores, uma em cada mão, como se fossem aqueles pirulitos que vinham com hélices de helicópteros. Pensou em deixar novamente na mesa do cara do estacionamento caso ele não estivesse, mas ele estava lá. E no meio desse pensamento, a flor da mão direita começou a se desfazer, então ela jogou na frente de uma garagem, onde chegava um táxi para estacionar. Fez um pensamento positivo, torcendo para que o taxista tivesse visto a flor. Não o ato dela, mas somente visto a flor. Andou mais um pouco, e resolveu respirar a flor que havia restado. Mas que delícia de perfume! Estava gotoso, suave e dava para sentir perfeitamente! Será a temperatura agradável do verão ao anoitecer? Será que aquela era uma flor feliz e predestinada, por isso tão especialmente perfumada? Bom, só sei que ela se sentiu tão segura após cheirar aquela flor, que sempre que alguém se aproximava, ela respirava aquele aroma para se sentir mais segura ainda. Ela sabia que ninguém do mundo, enquanto estivesse segurando aquela adorável flor-sem-nome, ousaria se aproximar dela para lhe fazer algum mal. Dito e feito. Sorria e segurava a flor com as duas mãos, como se estivessem cheias de amor! Queria não só abraçar, como beijar o mundo. Sentiu uma vontade imensa de dar aquela flor de presente para alguém. Mas não encontrava coragem. E assim, andava se olhando, olhando para seus pés, enxergando a flor balançando para frente e para trás, via seu all star vermelho bonitinho e sua calça com uma cor clara indefinida caindo por cima deles. Pensou que queria andar, andar, andar sem se cansar. Andar sem parar e sem se cansar. Estava experimentando um gozo enorme ao andar naquela rua, com aquela flor perfumada que lhe dava segurança, com aquela temperatura agradável de verão, com aquele céu do anoitecer lindo que ela só conhece naquele bairro. Não se cansava de andar nem de cheirar a flor. Estava. Ela simplesmente estava lá, como alguém que existe. Ela estava existindo. E nem sei se posso arriscar a dizer que ela estava feliz porque não sei se seria essa a palavra pra expressar tudo o que ela sentia. Na verdade ela sentia amor. Muito amor. Amor demais. E queria dividir com todos, dar flores ao mundo. Ok. Atravessou a avenida sorrindo, segurando a flor com as duas mãos novamente. Com sorte, seu ônibus já a esperava. Não sabia onde guardar a flor, já que o transporte coletivo estava bem cheio. Pendurou a flor-sem-nome no bolso menor de sua mochila. Na verdade guardou o cabo entre os dois zípperes, deixando a mostra as pétalas, para todos verem como ela era especial (a flor). Pediu licença para as pessoas próximas à porta em que iria descer, e estacionou seu corpo em pé no degrau. Ficou olhando para o rapaz que havia deixado o traseiro de seu corpo no degrau. Mas não olhou muito. Olhou pouco, o suficiente para imaginar como ele deveria ser em seu cotidiano, sua vida, qual seria sua personalidade. Imaginou uma personalidade pessimista. Viu que não usava aliança. Mesmo assim, imaginou-se dando a flor para ele e dizendo "Seria um disperdício eu levar essa flor perfumada para minha casa". Percebeu o quão especial a flor era. Uma simples flor jogada no chão. Uma flor do acaso. Se transformou em a flor-sem-nome, a mais perfumada, por isso especial. Acho que como já disse, era predestinada. Ela teve um significado para a garota. Teve um significado para mim, assim como teve um significado para você também, e ainda terá um significado para o rapaz da personalidade pessimista. A garota ensaiou a frase na cabeça um milhão de vezes. Decidiu que de qualquer jeito, dizendo ou não dizendo, iria entregar a flor. Realmente, seria quase um pecado trazer a flor de volta, e não teria coragem de dar à ninguém na rua, pois já havia escurecido, e após entregar a flor, a segurança que seu perfume em seu poder lhe dava, iria escapar de suas mãos; aliás, suas mãos já haveriam feito a doação. Quando menos percebeu, seu coração estava saltando pela boca! Estava em uma grande excitação e seu ápice seria a entrega da flor! Apertou o botão de "parada solicitada", o ponto estava chegando, cada vez mais perto... ai seu coração! sua boca! sua flor!... Bum! Foi inexplicável. Bem na hora de descer, ela olhou para o rapaz, colocou a flor em frente ao seu rosto (que estava voltado para o chão) e disse: "pra você". E meio tímido, com um rosto de quem não sabia como reagir, ele respondeu "obrigado". Nossa! Eu só sei que aquela menina saiu daquele ônibus quase gemendo. Ela fazia um sonzinho baixinho, parecia que estava miando. Estava muito, mas muito contente. Ela fez algo. Ela fez uma transformação de significados em cima de um objeto. E adorou! Se sentiu LI-VRE. Se sentiu criadora, criativa. Se sentiu como aquela flor. Especial.

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